quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A preparação do escritor


Publicado originalmente no Jornal do Brasil por Henrique Rodrigues Logo na apresentação do livro A preparação do escritor, Raimundo Carrero já direciona seu foco, ao afirmar que a obra foi feita “para aprendizes de escritor e, quem sabe, para escritores”. O livro é resultado de 11 aulas on line ministradas no Portal Literal em 2008 [na verdade, a oficina é de 2006], às quais adicionou um capítulo com bibliografia comentada e exercícios. Trata-se de uma obra voltada para o trabalho técnico no processo de escrita de textos literários narrativos. Longe de tentar ensinar o pulo do gato ou receitas pré-fabricadas para quem deseja iniciar uma trajetória na literatura, Carrero propõe que se analisem os processos criativos de autores como Flaubert, Clarice Lispector, Thomas Mann e Guimarães Rosa. Ainda que volte aos mesmos temas, por conta da coerência de sua linha de trabalho, este novo guia é diferente de outro livro já lançado sobre o assunto (Os segredos da ficção, de 2005), uma vez que mergulha diretamente na prática, dirigindo-se em primeira pessoa ao suposto aluno-leitor. Assim, o livro tem um caráter mais empático e facilitador para que os caminhos do exercício literário sejam percorridos. Daí que ensinamentos segundo os quais, no início, é normal que se copie a maneira de escrever dos autores preferidos. Num dos exercícios, propõe até que se reescreva um trecho do Retrato do artista quando jovem, de James Joyce, elucidando que, no jogo da literatura, a intertextualidade é uma das peças mais utilizadas. O aspecto lúdico e informal do livro faz com que essas dicas sejam encaradas quase como um convite. Porém, essa praticidade não exime A preparação do escritor de ser um manual, sobretudo, repleto de apuro técnico. Compreensão de foco narrativo, criação de diálogos e cenários, entendimento do tempo psicológico da literatura e vários outros pontos fundamentais para a escrita são explicados sem firulas teóricas ou gorduras inaplicáveis. A reflexão sobe a literatura se dá juntamente com a imersão no texto e o exercício criativo. Carrero venceu os Prêmios APCA e Machado de Assis em 1999 com o romance Somos pedras que se consomem e o Jabuti em 2000 com As sombrias ruínas da alma. Tanto no seu processo criativo quanto nas lições aos alunos, troca a inspiração por conceitos como eclosão e intuição. Desde 1988, vem ministrando oficinas literárias regularmente e possui todo um embasamento metodológico e prático para essa escolha – em determinados meios que priorizam a performance em detrimento do trabalho com a palavra, essa opção soaria polêmica. “Um escritor não se inspira, eclode – sai da casca, amadurece”, afirma. Rimbaud, Bandeira e Poe também fornecem elementos para a composição de narrativas. Diferentemente do que ocorre entre vários prosadores contemporâneos, para quem poesia é algo chato, acredita que os grandes poetas devam ser lidos, pois ensinam a escrever. Voltar-se à leitura Ao sugerir que o aspirante a escritor se volte para a leitura, a análise criteriosa e a paciência diante da criação de narrativas, Carrero também chama a atenção para a necessidade do trabalho e da humildade no processo de criação literária. Em tempos de valores fugazes, com lítero-celebridades instantâneas e quase banalização da qualidade e do conteúdo, o livro chama a atenção para que a literatura se faz, antes de tudo, por meio do esforço e o esmero silencioso com a palavra. Se nem todos os alunos que acompanharam as aulas on line e lerão A preparação do escritor venham a se tornar escritores, é certo que serão leitores mais argutos e ingênuos – no sentido que Raimindo Carrero aplica como aqueles que se deixam surpreender pela narrativa. E se a nossa sociedade precisa de um reforço para que a recepção da literatura seja mais qualificada, esta já seria uma mais que valiosa contribuição.

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